Uma palavra e 27 segundos para a inflação


Em quase 12 minutos de falatório, Dilma dedica quase nada ao tema que mais interessa ao país hoje

Dilma Rousseff ocupou ontem 11 minutos e 46 segundos de rede nacional de rádio e televisão. "Em meio a uma penca de temas, nem sempre conexos, dedicou exatos 27 segundos a falar do assunto que mais interessa ao país hoje: a estabilidade da moeda e o controle da inflação", diz a Carta de Formulação e Mobilização Política desta quinta-feira (2). Segundo o documento editado pelo Instituto Teotonio Vilela, a desproporção ilustra as reais preocupações do governo petista com a carestia. "A inflação demanda tolerância zero. Mas esta convicção tem faltado ao governo da presidente", reprova o órgão de estudos políticos do PSDB. Leia abaixo a íntegra:

Dilma Rousseff ocupou ontem 11 minutos e 46 segundos de rede nacional de rádio e televisão. Em meio a uma penca de temas, nem sempre conexos, dedicou exatos 27 segundos a falar do assunto que mais interessa ao país hoje: a estabilidade da moeda e o controle da inflação. A desproporção ilustra as reais preocupações do governo petista com a carestia.

Supostamente dedicada ao Dia do Trabalho, a fala da presidente juntou assuntos tão díspares quanto educação, royalties de petróleo, geração de emprego e – até mesmo – inflação. Mais serena que das outras vezes, nem por isso perdeu seu costumeiro tom eleitoral, a ponto de Dilma terminar seu pronunciamento com quatro frases seguidas em exclamação, sobre pomposa trilha sonora.

Foi o 13° pronunciamento da presidente em rede nacional. Dilma já conseguiu tornar-se mais loquaz que seu antecessor: Lula precisou de cinco anos para alcançar o mesmo número que a presidente alcançou em menos de dois anos e meio, segundo levantamento publicado hoje por O Globo.

Mas o que interessa aqui é avaliar como a presidente, e, consequentemente, seu governo, enxerga o problema da inflação no país. A palavra foi usada apenas uma única vez no seu discurso de ontem, em meio a outros 1.428 vocábulos. O tema é tratado em apenas um dos 29 parágrafos redigidos por João Santana para Dilma recitar no rádio e na TV.

Eis a frase única: “É mais do que óbvio que um governo que age assim e uma presidenta que pensa desta maneira não vão descuidar nunca do controle da inflação. Esta é uma luta constante, imutável, permanente. Não abandonaremos jamais os pilares da nossa política econômica, que têm por base o crescimento sustentado e a estabilidade.”

Nenhuma palavra mais foi dita a respeito. Por que será? Porque, assim como o PT, a presidente baseia sua visão sobre inflação numa crença fajuta: vale trocar um pouco de aumento nos preços por um tantinho mais de crescimento. No Brasil de Dilma, acontece uma coisa, mas não acontece a outra: nossa inflação é alta, mas nosso crescimento é baixinho.

A inflação brasileira está bem acima da média mundial. Enquanto as previsões mais otimistas esperam algo em torno de 5,7% para este ano, as economias avançadas devem ter inflação de apenas 1,6%, segundo o FMI. O avanço da nossa economia, porém, tem sido bem menor. Na América Latina, depois de perdermos para todos os países exceto o Paraguai em 2012, neste ano só ganharemos da Venezuela, segundo a Cepal.

Mesmo assim, Dilma preserva uma visão míope do problema, que externara com todas as letras em março, na África do Sul: “Não concordo com políticas de combate à inflação que olhem a questão da redução do crescimento econômico. Esse receituário que quer matar o doente em vez de curar a doença é complicado, é uma política superada”. A presidente não cumprirá a meta de inflação em nenhum dos quatro anos de seu mandato.

Na semana passada, o coro engrossou quando Fernando Pimentel disse que o Brasil tem uma “inflação de base” de 5% a 6%, dando a entender que, com os petistas, dificilmente a taxa cairá abaixo disso e que o PT não vai fazer o menor esforço para tanto. O ministro do Desenvolvimento fala com base na experiência: na era petista, a média de inflação no Brasil foi de 5,8%.

Em março, a inflação superou o teto da meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para o ano, chegando a 6,59%. Em abril e maio, o índice deve arrefecer um pouquinho por razões estatísticas, pela ajuda da safra agrícola recorde e pelo recuo de preços internacionais, principalmente das commodities.

Em junho, porém, a taxa deve voltar a subir e novamente furar o teto. Será uma boa ocasião para discutir uma mudança importante no tratamento do problema no país: no fim do semestre chegará a hora de o CMN – integrado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do Banco Central – estipular a meta de inflação que valerá para 2015, ou seja, para o primeiro ano do próximo governo.

Se o governo do PT, de fato, tiver algum compromisso com o controle da escalada dos preços, será um bom momento para o país passar a perseguir, progressivamente, patamares mais baixos de inflação, e não continuar flertando perigosamente com o teto de uma meta que se tornou fictícia.

A meta para 2015 poderia ser mais baixa que os 4,5% que vigoram no país desde 2005. Nosso patamar atual é alto sob quaisquer ângulos que se analise: entre 29 países que adotam regimes como o brasileiro, apenas Gana e Turquia têm hoje metas superiores à nossa. Convenhamos, não deveriam ser os melhores modelos para o Brasil…

Como quem reconquistou a estabilidade da nossa moeda, a oposição sabe como é importante garantir que o país não perca esta conquista, que penaliza, sobretudo, os mais pobres. Contra a inflação, tolerância zero. Esta convicção, infelizmente, tem faltado ao governo da presidente Dilma Rousseff, como, mais uma vez, ficou claro no seu pronunciamento de ontem.

(Fonte: ITV/ Foto: reprodução)

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2 maio, 2013 Últimas notícias Sem commentários »

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